Uma “Viagem tratamento” com um avô cadeirante pela Região dos Lagos

Primeiramente, essa viagem não era pra ser para Búzios e Cabo Frio, mas sim, para Ubatuba. Uma viagem descontraída de Fusca e vagas reservadas em um hostel, eu, Hugo e minha mãe. Mas os ventos nos levam para outros lugares… Mentira! Na verdade tudo começou com um surto de solidão do meu avô. Vou ser breve para irmos ao que interessa: Minha mãe se dedica a cuidar do meu avô grande parte do seu tempo. Meu avô tem 82 anos e um acúmulo de inúmeras dores na coluna e nos ossos acompanhada de depressão e pressão alta. A mais ou menos um ano operou a coluna por conta de hérnias de disco que o impediam de andar, desde então faz fisioterapia e se locomove de cadeira de rodas, apesar de semanas antes da viagem já estar dando alguns passos com dificuldade.

Minha mãe ao dar a notícia que iria se ausentar para que pudéssemos viajar viu meu avô simplesmente surtar, acusou toda a família de abandono e quis até convocar uma reunião extraordinária para nos comunicar de que ele ainda não está morto. Minha mãe, sem acreditar, pensou por dias o que poderia fazer diante da reclamação dele. Como cancelar uma viagem com tudo já reservado? Enfim… Foi o que fizemos! Cancelamos tudo quando ela decidiu que faríamos uma “viagem tratamento” com meu avô. A primeira reação do meu avô: “Não vou! Não tenho como viajar! Não posso nem beber uma cerveja! Não posso nem andar! Você que vai ficar em casa!”. A segunda reação do meu avô: “Não vou! Não adianta!” e assim permaneceu até ele entrar no carro depois do meu tio ter que o convencer, depois de todas as profissionais que cuidam dele passarem uma semana o animando, depois da minha mãe insistir umas duzentas e cinquenta e sete vezes. Enfim… Ele entrou no carro!

O fato do meu avô ser um velhinho, cadeirante e um tanto (muito) ranzinza fez com que reprogramássemos tudo! Abandonamos Ubatuba e escolhemos um lugar mais próximo. A princípio cinco dias, três dias hospedados em Búzios e dois dias hospedados em Cabo Frio. “Mas porque se hospedar em dois lugares diferentes sendo que são tão próximos um do outro?” Para quem tem depressão, não viaja há anos e só sai de casa para ir ao médico, só mudar de pousada já é uma grande mudança de ares.

A viagem de fusca? Adeus! Nem de longe tem a estrutura e o conforto para comportar meu avô. Viajamos no carro dele, o Hugo foi o motorista. As pousadas foram escolhidas com muito cuidado, demos preferência a pousadas sem escadas, com rampas que tivessem condições de passar a cadeira de rodas, com quartos amplos, banheiros com barra e que desse para entrar com a cadeira. O fato dele conseguir levantar da cadeira e dar alguns passos ajudou muito também (condição que a maioria dos cadeirantes não possuem).

Quero deixar claro que nem de longe sou uma especialista em acessibilidade e como qualquer pessoa comum que teve uma formação social muito carente no que se refere a saber lidar com aqueles que possuem certas limitações físicas, não costumo pensar sobre e nem reparar muito nas condições acessíveis dos lugares que frequento ou pelos que passo. Exponho aqui situações que tivemos que enfrentar por conta das limitações de um familiar, que aliás, todos nós estamos sujeitos. Muitas vezes só quando dói em nós ou em alguém que amamos, passamos a nos importar.

BÚZIOS

Nos hospedamos na pousada Telhado Verde em Búzios, fizemos questão de reservar quartos no térreo por questões óbvias. A pousada é simples, porém atendeu bem o que precisávamos. Possui vaga para prioridades, os quartos ficam em um plano um pouco mais alto, mas há escadas e rampas (que não são tão adequadas, mas mesmo assim contam como ponto positivo), o quarto garante razoável locomoção, mas nada que gerasse muita dificuldade, o banheiro não era tão pequeno e dava para entrar com a cadeira, possuía barras no Box, porém havia um degrau, mas como disse, meu avô consegue dar alguns passos e ficar em pé, então não houveram grandes dificuldades. A pousada é muito bem arborizada, o que representa um atrativo. O atendimento é bom e os funcionários atenciosos. Em nenhum momento a pousada se propôs a ser adaptada para cadeirantes, mas se partirmos do pressuposto que todos os lugares deveriam ser adaptados para cadeirantes se realmente visamos uma verdadeira inclusão, sempre veremos muitos pontos que deixam a desejar, mas comparada a outras pousadas que estão no mesmo contexto excludente que o resto do mundo, a pousada Telhado Verde atendeu bem as nossas expectativas.

Sobre Búzios… É lindo! Gosto muito daquele lugar que me trás lembranças realmente especiais, eu e Hugo passamos nossa lua de mel lá, mas não é só por questões emocionais que Buzios, para mim, merece ser visitada. Para quem não conhece, Armação dos Buzios é um município da região dos lagos do Rio de Janeiro, muito turístico que recebe pessoas do mundo todo, principalmente da América latina (o espanhol é só o que se ouve nas ruas). Desta vez fizemos uma viagem um tanto limitada, uma vez que tínhamos que adequar as necessidades do meu avô à circulação no lugar. A Rua das Pedras, a principal rua comercial e gastronômica localizada no centro de Búzios  foi uma boa opção por contar com calçadas que tornavam possível a locomoção com a cadeira de rodas, apesar da rua como o próprio nome diz, ser toda revestidas de pedras o que dificulta muito se a cadeira não estiver na calçada que é feita com pedras mais regulares, apesar desta calçada não estar presente em toda a rua, apenas em parte dela.

Viajar para lugares praianos com um cadeirante representa um desafio, mas demos um jeito aqui, outro ali, recebemos muita ajuda e deu! Conseguimos dar alguns passeios, fomos a restaurantes de fácil acesso e que tivessem uma boa vista já para unir o útil ao agradável, como o restaurante Bardot localizado também na Rua das Pedras.

* Restaurante Bardot

O Porto da Barra que fica perto da praia de manguinhos é lindo e foi o melhor lugar que achamos para passear com o meu avô, o passeio com a cadeira foi muito agradável e sem dificuldades. O lugar conta com uma vista maravilhosa, restaurantes incríveis e um clima super leve. Comi um dos melhores pratos que já experimentei na vida no restaurante Yamoto Sushi Bar, vou ficar devendo o nome do prato, mas acho que a foto já diz muito.

 

Em relação às praias, achamos que seria viável o acesso a duas delas, a praia da Ferradura por ser pequeno o trecho entre a rua e a areia da praia (o que facilita o transporte da cadeira de rodas do carro até a areia) e a praia Azeda que apesar de não ser possível levar o meu avô até a faixa de areia próxima do mar, conseguimos ficar com ele na parte mais alta onde estão os quiosques.

* Praia da Ferradura

Os três dias que passamos em Búzios foram como uma luz pro meu avô. Ele já tinha ido em Búzios quando era jovem, a trabalho. Nem imaginava que era capaz de viajar de novo. E olha… Acredita que ele até passou a andar mais e com menos dificuldades?! Mas passemos para o próximo capítulo e prossigamos para Cabo Frio…

 

CABO FRIO

Buzios faz divisa a oeste com Cabo Frio, fica a 24 km de distância. Demos um pulinho de um canto pra outro. Dessa vez nos hospedamos no Hotel Residencial Porto Veleiro, lugar maravilhoso que é de fato um pequeno porto localizado às margens do canal do Itajuru que dá acesso rápido de taxi boat ao centro de Cabo Frio e a Ilha do Japonês. Ótimas acomodações, sem dificuldade alguma de locomoção com a cadeira de rodas e um ótimo lugar para estar mesmo que não seja possível sair do hotel (tivemos que contar com essa possibilidade por conta das condições de saúde do meu avô). Apesar do hotel prometer acessibilidade e quarto adaptado para cadeirantes, deixou a desejar em relação a estrutura do banheiro que ficava todo alagado após os banhos por ser muito pequeno e sem estrutura adequada.

O café da manhã muito bem servido com a vista maravilhosa do canal e da cidade fez valer a pena cada manhã e as reservas que eram para duas diárias passaram a ser para três. Para quem não queria viajar de jeito nenhum, acrescentar mais um dia a viagem foi realmente impressionante!

Em Cabo Frio conseguimos ir à Ilha do japonês que fica muito próximo ao hotel, fomos de carro, a entrada da estradinha de terra que dá na ilha fica bem ao lado. Um lugar muito calmo, de água cristalina e muito branda, nem sinal de ondas. E o meu avô que nem sequer encostava na água e na areia do mar(todo esse tempo ele não tirou as sandálias dos pés), não só pisou descalço na areia, mas ficou sentado numa cadeira colocada dentro da água para molhar os pés. Meu avô ainda se sente desconfortável em ficar descalço na praia por conta de uma ferida que ficou aberta em seus pés durante décadas justamente pelo contato excessivo com a areia e a água do mar em seus tempos de Marinha. A ferida já está curada e só quem convive com ele sabe a proporção dessa vitória!

* Ilha do Japonês.

 

ARRAIAL DO CABO

Conseguimos dar uma passadinha por Arraial do Cabo que fica a quase 20 km do Hotel Porto Veleiro em Cabo Frio. Fomos à Prainha por ser a praia mais acessível para o meu avô e também se encontrar a uma distância pequena da rua. A praia é maravilhosa e a fama de “Caribe brasileiro” não é à toa! Água cristalina de um azul incrível.

E POR AI VAI MEU AVÔ…

E não é que meu avô foi viajar… E deu tudo certo! Hora ele falava: “Estou me sentindo como um rei!”, hora falava: “Vocês não sabem cuidar de mim!”. Mas enfim… Era o esperado, nada que doses de paciências, compreensão e amor não resolvam. Ele andou, se levantou da cadeira mais rápido do que antes, sorriu, contou histórias e lembranças, reclamou, praguejou, comeu coisas novas, bebeu cerveja, caipirinha e vinho, voltou a praia que era um lugar tão familiar à ele enquanto ex- marinheiro. Foi feliz!

Não quero cair aqui no discurso politicamente correto sabe… Sei que somos limitados em compreender, ter empatia e incluir, mas essa experiência foi boa para todos nós. Descentrar de nós e pensar primeiro no outro. Abdicar um pouquinho da juventude para viver um pouco da velhice do meu avô, mesmo que por alguns instantes.

A depressão travou as pernas do meu avô, os pensamentos, a imaginação, a alegria. Sei que nem todos tem o privilégio de viajar para esquecer as tristezas, mas se puder, faça. Uma ambulante vendedora de bijuterias na praia Azeda veio até o meu avô e disse a ele que quando o viu sendo levado com dificuldade do carro à areia da praia pensou “só não existe jeito pra morte”. Ela nos contou que já passou por diversos cânceres e com o tempo adquiriu uma síndrome do pânico, naquele dia ela nem queria sair para trabalhar, mas foi ciente de que precisava fazer aquilo, quando chegou à praia e viu meu avô, recuperou as forças e voltou a si.

Agora, semanas depois da viagem, ele está andando, muito melhor do que antes, mais rápido e mais disposto, seu humor melhorou, voltou a cantar e falar alto e está de passagens compradas para viajar junto da minha mãe em fevereiro para Fortaleza, CE, sua terra natal.


Se possível, viaje! Se pensar ser impossível, repense!

 

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