Largar o “nada” para viver o “tudo”: a história de Andressa e Thiago

Há pessoas que estão centradas em coisas que fogem à maioria, que escolhem viver diferente, viver fora do comum, que olham para onde os olhos da maior parte das pessoas não estão. Quero falar de Thiago e Andressa e do processo que tornou a vida deles, vida de outros.

Viajar, arriscar e cultivar a simplicidade no modo de viver são coisas que fazem parte da essência desse casal. Saíram de Montes Claros (MG) para Londres para ganhar a vida com apenas “cinco conto” no bolso e desde então tiveram a maior constatação de que nunca foi preciso de muito para viver. Ao contrário do que se espera do velho sonho de crescer e se autoconstruir na Europa, esses “cinco conto” não virou um grande rendimento e Andressa e Thiago não “venceram na vida”, pelo menos não do jeito que se espera. Materialmente, voltaram melhores do que foram, mas espiritualmente… foi transformador!

Sabe aquela história de que viagens nos ensinam, nos constroem e tal… Então foi nessa viagem a Londres que tiveram sua identidade totalmente reconstruída, conheceram o que dá sentido a suas vidas, Deus. Foi aí que tudo mudou, quando voltaram ao Brasil tinham conhecido o amor que lhes faltava e quando o amor é demais, transborda. Decidiram largar tudo e se dedicarem aos outros, na verdade, como Tiago diz: “a gente largou o nada para viver o tudo”.

* Instituto Filhos da Luz

Andressa grávida; um “barracão” improvisado nos fundos da casa da mãe; uma vida a construir e uma renda média mensal fixa de seis mil reais. Mas o “tudo” eram os outros, sempre vindo ao encontro do casal, eles nunca precisaram procurar, atraíram!

– Eu não preciso de comida! Eu como todos os dias, melhor do que você. Como todo dia em restaurante. Quer me ajudar? Me leva com você, me tira da rua.

Dois homens que se encontravam em estado de rua agora moram no “barracão”, junto dos dois; Andressa grávida; empregos deixados para trás; renda média mensal totalmente instável. E foi assim que se deu início a nova vida de Andressa e Thiago, quando resolveram “viver para cuidar de almas” (em suas próprias palavras). Do “barracão” a uma casa grande com dois anos de aluguel pago, doada ao casal. E então no dia 27 de março de 2016 foi oficialmente inaugurado, nos fundos da nova casa, o Instituto Filhos da Luz. Vinte e dois reais deram início a pequena estrutura, o resto foi a custa de todo mundo, um tijolo dalí, um saco de cimento de lá, um trabalho voluntário de um, uma ajuda de outro… E foi assim, de ajuda em ajuda e com muito empenho não só de Andressa e Thiago, mas de Vitor e Sara, casal de amigos que sempre estiveram juntos na construção de tudo isso, pilares tão importantes quanto, que hoje, o Instituto Filhos da Luz conta com um terreno de dois hectares em Montes Claros (MG), terreno este que foi parcialmente doado.

* Sede atual do Instituto Filhos da Luz

Thiago e Andressa dizem que criaram o instituto para que pessoas não tenham que viver o que eles viveram, o desamparo, o conflito familiar, a dependência química, o estado de rua, a depressão, para que se reconstruam. O instituto recebe pessoas em estado de vulnerabilidade social, desde dependentes químicos a depressivos e idosos abandonados ou mau cuidados, contam com um funcionário contratado e mais de quarenta voluntários entre psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, nutricionistas e professores de diversas áreas. Os internos vivem uma rotina organizada e disciplinada e além de todo suporte que necessitam contam também com o suporte espiritual para que se identifiquem com Cristo e vejam nele a imagem daquele que, como humano, também sofreu, mas que tudo suportou, o maior consolador.

Não contam com nenhuma ajuda governamental, mas recebem trabalho voluntário de todo tipo. Desde moradoras locais se dispondo a cortar e fazer as unhas dos internos até aulas de alfabetização e workshops de carpintaria. O instituto comporta até doze internos e ao todo foram mais de quatrocentas pessoas que tiveram suas vidas mudadas desde que Andressa e Tiago decidiram tomar outra postura sobre o próximo: deixar de serem juízes de pessoas e passar a acolhe-las.

* Dormitório dos internos

Thiago, Andressa e Levi Luz (filho do casal) moram em uma casa que fica dentro do instituto. O ambiente transparece o cuidado que é depositado ali e todas as coisas lembram a verdadeira inspiração de tudo, Deus. A preocupação com a sustentabilidade é grande, o barro é usado como liga para os tijolos e como tinta de parede, muitas coisas são reaproveitadas e recicladas, como os vários equipamentos da academia feita para os internos toda produzida artesanalmente e com material reaproveitado, inclusive a água é reaproveitada para a horta que conta com mais de cinco mil metros. O autosustento do instituto é uma meta, além da horta há aproximadamente quatrocentas galinhas caipiras que são vendidas e usadas para o próprio consumo, além dos ovos produzidos.

De acordo com estas duas pessoas tão inspiradoras, nunca lhes faltou nada, dias difíceis vieram, mas Deus nunca os deixou. Desde que decidiram viver pelo outro encontraram sua identidade. Thiago diz que “Thiago e Cazuza”, como era conhecido antes de ser transformado, ainda são a mesma pessoa, a essência permanece, mas o amor chegou, o propósito mudou.

Às vezes precisamos conhecer pessoas assim, que nos mostre que a vida “não é só isso”, que tem mais. Pessoas que nos constranjam a fazer algo, a tirar o olho do próprio umbigo, porém, não tenho aqui a intenção de apenas avivar a velha culpa social que temos por fazer tão pouco. É como diz Eduardo Galeano: “Eu não acredito em caridade. Eu acredito em solidariedade. Caridade é tão vertical: vai de cima para baixo. Solidariedade é horizontal: respeita a outra pessoa e aprende com o outro. A maioria de nós tem muito a aprender com as outras pessoas.”

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